O “Grito do Ipiranga” do Século XXI
Música: "Palavras Repetidas" Gabriel, O Pensador
Actualmente, a violência no Brasil tem-se tornado um assunto cada vez mais comentado por todos, num ambiente de revolta e indignação que tende somente a piorar. Já ninguém pode negar e já ninguém pode tentar disfarçar mais aquilo que é evidente, que fala por si, que está exposto aos olhos de todos: a violência existe e está gradualmente a tornar-se parte do dia-a-dia do cidadão comum. Como pode um país chegar a este ponto?
O Brasil, mesmo no exterior, é conhecido - também - pela grande e constante desiguladade social que o corrói desde sempre: os ricos continuam ricos, ou enriquecem cada vez mais, e os pobres continuam pobres ou ainda mais pobres; vêem-se favelas ao lado de apartamentos de luxo; uns dormem em casas de férias, na praia, enquanto outros já chamam casa àquele chão húmido e sujo por baixo da ponte.
Para lutar contra a sua condição de vida miserável e por um "lugar ao sol", para tentar sair do anonimato e conseguir algo de seu, uns procuram o acesso à educação e à formação profissional (que nem sequer chega a todos de igual modo) e outros, num acto de desespero (talvez por tentativas frustradas ou talvez por ignorância de um caminho melhor) procuram a aquisição de dinheiro através da prática de acções ilícitas, repudiadas pela sociedade. Mas, mais do que um reflexo da procura de uma vida melhor, a violência é um grito de revolta, uma chamada de atenção para o mundo, é o sinal evidente de que há lacunas na sociedade em que o indivíduo se insere (e, talvez por isso, nenhum país seja imune a este mal).
A solução mais fácil, ou talvez mais cómoda, para o governo brasileiro é a de "eliminar" esses indivíduos prendendo-os, violentando-os, fazendo-os sofrer privações, tomando medidas de emergência que não resolvem, de facto, o problema mas que o podem "conter", como foi o caso da proposta de redução da maioridade penal, em Fevereiro de 2007, e o requesito para que fossem usadas as Forças Armadas nas favelas do Rio de Janeiro, em Abril do mesmo ano. Mas o que essas medidas têm provocado é a crescente revolta das populações, dezenas de mortes e o gasto de milhões de reais do Estado que poderiam estar a ser utilizados para a resolução da origem da violência, já que ela é o reflexo dos problemas de que o Brasil sofre realmente.
Por isso, pede-se ao Governo que estabeleça as suas prioridades e que invista mais no combate à fome, à má distribuição de renda, no melhoramento da educação, que são pontos cruciais na eliminação do vírus que se instalou há muito no Brasil, e não apenas os sintomas dessa horrível doença que é a violência.
nota: desisti de tentar pôr imagens aqui - vocês podem imaginá-las...
Mudam-se os tempos, mudam-se os comportamentos
nota: neste texto, o que está em parêntesis são apontamentos que eu escrevi depois e, como tal, não fazem parte do texto original
Quando se fala em 'valores', a maioria das pessoas pensa num conjunto de opiniões que elas têm sobre o que é certo ou errado e que as leva a agir de uma determinada maneira perante as situações que se atravessam nas suas vidas. São esses conceitos que levam as pessoas a aceitar, rejeitar ou criticar certas atitudes e opiniões por parte dos outros e são também esses conceitos que contribuem muito para o modo como cada um age e vê o mundo nos vários aspectos da sua vida: a relação com as outras pessoas, o modo como encara o compromisso e a diversão. Assim, o choque de valores tem na sua origem as diferenças dos ideais defendidos por determinadas culturas, povos e países.
De acordo com pesquisas recentes, os jovens brasileiros (e, embora não tenham sido incluidos na pesquisa, alguns portugueses também) preocupam-se, sobretudo, em viver intensamente, dedicando-se à busca do prazer pessoal imediato, adiando ao máximo as responsabilidades e compromissos tanto em termos profissionais como pessoais. Muitos deles afirmam que consideram consumista e individualista a geração em que vivem, pois há apenas a preocupação na escolha de actividades profissionais que proporcionem o bem-estar material e o rápido reconhecimento social (money no bolso é tudo o que eu quero, money no bolso, saúde e sucesso!). Além disso, classificam a sua geração como "vaidosa" já que ela valoriza a aparência visual e acredita que isso é a chave para o sucesso e para o surgimento de mais oportunidades na vida. Ainda assim, existe uma minoria de jovens que refuta o consumismo, vê menos televisão e é "politicamente correcto".
Os jovens, que são o reflexo das sociedades, expressam bem quais os valores que são requesitos necessários para integrar determinado grupo e é inegável que as gerações actuais vivem sob uma conduta um pouco (ou talvez bastante) diferente daquela que era considerada desejável pelas gerações anteriores. Talvez os valores como o consumismo, a importância da aparência visual, o prazer pessoal imediato, que são valorizados hoje, sejam um aviso de como o Mundo será visto pelas gerações futuras. Mas deve-se entender que ter diversão e viver a vida intensamente não é incompatível com o sentido de responsabilidade e compromisso, porque esses valores são também reflexo da consideração que as pessoas podem ter umas pelas outras e, não menos importante, por elas próprias também.