Lado Lunar
10Fev/09

Miss Solidão

Música: “Angel” Sarah McLachlan

Há alguns dias uma conversa entre colegas de faculdade  fez-me ver o quanto as pessoas hoje em dia se queixam de não serem felizes, não se sentirem realizadas, de estarem sozinhas na multidão, de nunca terem o que querem.

Durante essa conversa, percebemos que as pessoas vivem num cíclo vicioso de insatisfação e,  mesmo quando estão rodeadas de gente que gosta delas e de quem gostam, parece ser da natureza humana julgar que falta sempre alguma coisa nas suas vidas monótonas.  No fundo, as pessoas nunca estão satisfeitas, porque estão constantemente a desejar novas coisas, não necessariamente porque precisem mesmo delas, mas sim porque o sentimento de que possuem algo lhes dá prazer... Um prazer que é momentâneo.

Se tivermos em consideração as coisas que jovens como eu, por exemplo, têm ao seu dispor, quer sejam coisas fúteis como uma televisão, um computador ou um portátil, até ao mais importante, como uma família unida e amigos leais, de que mais necessitamos ? Necessitamos de coisas que não temos... pela simples razão de não as termos. Queixamo-nos, muitas vezes, do pouco que possuímos, do muito que nos falta, mas esquecemo-nos que, mesmo ao nosso lado, existem pessoas que necessitam de coisas tão primárias e indispensáveis como o amor ou a amizade.

Pensando bem, o amor e a amizade são tema principal das mais variadas canções, dos mais diferentes géneros, da poesia mais cativante, da mais bela pintura. E, se repararmos, estas duas temáticas são discutidas sob duas perspectivas opostas: ou celebramos a amizade e o amor verdadeiros por serem tão raros, ou então lamentamo-nos por nunca termos sido amados ou por termos sido enganados, e partimos para generalizações negativas acerca do sexo oposto (não é verdade?). Estes temas manifestam a nossa realidade, sem dúvida, mas traduzem, acima de tudo, os nossos receios e desejos mais profundos: não passar os últimos dias da nossa vida sozinhos e sermos amados incondicionalmente! De facto, expressões e sentimentos verdadeiros de amizade ou amor são difíceis de encontrar e de manter, por isso a desilusão e a solidão são cada vez mais frequentes.

Mas a sociedade em que vivemos também fomenta estes sentimentos negativos que parecem nunca desaparecer por completo: o individualismo é cada vez mais forte, as pessoas sentem que têm de se esforçar cada vez mais para manter uma relação e a verdade é que poucos têm tempo, paciência ou disponibilidade para cultivar relacionamentos, uma vez que a sociedade exige tanto de nós e das nossas capacidades. Cada vez mais, a sociedade exige de nós rapidez e eficiência. Damos o máximo, o que temos e o que não temos, para conseguir alcançar o sucesso profissional, para não cairmos na miséria, para podermos ter o estilo de vida com que sempre sonhamos. E esquecemo-nos de que somos seres humanos e que, como tal, necessitamos de conviver uns com os outros, necessitamos de criar laços, de inclusivamente dar continuidade à nossa espécie. Que qualidade de vida poderemos ter se disfrutamos de uma bela casa, de boa comida, de uma cama confortável sozinhos?

Sem razão aparente, perdemos pessoas que tomamos como dados adquiridos na nossa vida, que consideramos que nunca nos iriam abandonar. Percebemos, finalmente, que elas são muito importantes para nós, mais importantes do que qualquer emprego, do que qualquer carro bom – e na impossibilidade de não podermos retomar o que tínhamos, sentimo-nos sós... Voltar a encontrar tal conforto, tal segurança, tal sentimento em alguém parece ser um caminho difícil e cheio de obstáculos, que muitas vezes consideramos não ter força suficiente para atravessar.

Naquela conversa de café na faculdade concluí, então, que a chave para deixarmos de  nos sentir constantemente sozinhos e insatisfeitos  é tentar disfrutar cada momento ao máximo e dar valor àquilo que temos, ainda que (achamos nós) isso seja pouco. Assim faremos com que tudo valha mais a pena, conseguiremos tirar o maior proveito daquilo que nos rodeia e aprenderemos a dar valor às pessoas certas.

27Abr/08

Um novo olhar…

Música: "Formiga no Carreiro"  Zeca Afonso

cravo.bmp Quando somos pequenos, percebemos que hoje se festeja algo, algo que não testemunhámos e que, talvez por isso, não consideremos determinante para as nossas vidas. Não estivemos lá, não tivemos culpa de nada, não fizemos para que aquilo acontecesse – alguém que nunca chegámos a conhecer, lutou para que a sociedade portuguesa fosse aquilo que é hoje. Era assim que eu pensava, de uma forma muito redutora.

Todos os anos a minha mãe fazia questão de ouvir em casa todas aquelas músicas de intervenção, ou do Zeca Afonso, sempre que era dia 25 de Abril. Algumas eu achava muito aborrecidas mas outras eram até engraçadas. Havia uma que eu achava que tinha uma letra muito curiosa, sobre uma formiga que andava num carreiro em sentido contrário. É das poucas de que me recordo de quando era pequena – só não percebia o porquê de se fazer uma música sobre uma formiga! Depois havia aquele filme, Capitães de Abril, que passava todos os anos e do qual a minha mãe falava com um ar importante, como se aquilo fosse a prova de uma grande conquista que nenhum português, nunca, deve esquecer. Eu limitava-me à minha insignificância de criança e, na verdade, nunca quis saber muito daquilo. Sentia-me um bocado mal por estas curtas lições de política, que eu ouvia de cada vez que era dia 25 do mês de Abril.

Hoje, tudo é diferente e já vejo as coisas de uma outra forma, como se tivesse saído da ‘obscuridade’ – sim, sei que este termo é um exagero mas não encontro outro mais apropriado. Além disso, a informação que agora nos chega sobre este dia e sobre o período da ditadura é muito mais vasta e está um pouco por todo o lado. Na escola, demos ao pormenor aquilo que foi o golpe do 25 de Abril, o que também me obrigou a saber tudo com muito mais atenção, quisesse eu ou não.

E agora, sim, compreendo a importância daquele dia, o quão bravos foram aqueles soldados, o quão reprimidas viviam as pessoas e o quão desejosas estavam de liberdade; compreendo o verdadeiro sentido da palavra liberdade e compreendo a sorte que é não ter vivido naqueles tempos – só espero que as gerações seguintes compreendam isso, de preferência, um pouco mais cedo que eu.

P.S. - só pude pôr este texto agora... Parece-me que estou dois dias atrasada!

2Fev/08

“No man is an island”

A Arte, de uma forma geral, está, inevitavelmente, presente no dia-a-dia do Homem, em diferentes níveis, desde o quadro exposto num museu até à música que ouvimos no rádio e, portanto, parece ser evidente que ela tem, de facto, presença no seu quotidiano. Através da arte, o Homem expressa sentimentos, defende ideias, reflecte sobre a sociedade em que se insere. Assim, considero que a Arte ‘faz’ as pessoas.

Diaramente, no rádio, ouvimos uma grande variedade de músicas e muitas delas evocam, de um modo particular, sentimentos ou momentos com os quais as pessoas se identificam ou, de um modo mais geral, as realidades do Mundo actual. Isso faz os ouvintes reflectirem sobre os sentimentos em questão ou fá-los confrontar-se com uma dura realidade. Veja-se o exemplo da música ‘No Bravery’, de James Blunt em que o cantor relata as cenas de violência que testemunhou nos países em guerra, enquanto soldado do exército britânico: Blunt relata não só uma experiência pessoal como também uma realidade, infelizmente, actual questionando o seu papel nesse cenário.

Por outro lado, a música “Broken Toy” da banda inglesa Keane, revela-nos que uma amizade de longos anos pode tornar-se mais distante quando uma das pessoas envolvidas se fartou da outra ou não já está disposta a investir nessa relação.

O cinema pode, também, ter influência nas pessoas: quem, muitas vezes não se sentiu atraído por um personagem num filme ou não desejaria ser como ele ou ter os seus poderes? A sétima arte, do meu ponto de vista, tem esse maravilhoso efeito de nos fazer esquecer tudo e de entrarmos num mundo completamente novo, o mundo do imaginário e da fantasia, das coisas impossíveis que só acontecem, mesmo, no ecrã. Poucos são os filmes que, como a saga Harry Potter, nos transportam para cenários que vão além do nosso imaginário, onde os feiticeiros não só voam em vassouras e têm varinhas, como também vão à escola para aprender feitiços e conhecer criaturas mágicas, além de praticarem jogos colectivos...no ar.

Ou então, para aqueles que gostam de algo mais realista, quantas vezes não saímos da sala de cinema a debater as questões abordadas num filme muito falado e homenageado pela crítica pelo problema que expõe? Quantas vezes não saímos da sala de cinema a pensar naquilo que acabámos de ver ? Filmes como “Diamante de Sangue” e o “Jardineiro Fiel” têm como cenário o caos e as guerras civis africanas, mostrando-nos que, muitas vezes, o que nos chega às mãos com tanto luxo e segurança, tem como custo a vida de muitas pessoas inocentes (depois daquele filme, a minha mãe disse que nunca na vida queria receber diamantes de presente!).

Podemos, então, ver que a Arte desperta consciências assim como também nos faz reviver emoções ou identificarmo-nos com determinadas situações. Esse é o elo de ligação entre o Homem e a arte: a capacidade de esta nos completar, de nos compreender, de acrescentar coisas novas à pessoa que somos.

22Dez/07

O “Grito do Ipiranga” do Século XXI

Música: "Palavras Repetidas"   Gabriel, O Pensador

Actualmente, a violência no Brasil tem-se tornado um assunto cada vez mais comentado por todos, num ambiente de revolta e indignação que tende somente a piorar. Já ninguém pode negar e já ninguém pode tentar disfarçar mais aquilo que é evidente, que fala por si, que está exposto aos olhos de todos: a violência existe e está gradualmente a tornar-se parte do dia-a-dia do cidadão comum. Como pode um país chegar a este ponto?

O Brasil, mesmo no exterior, é conhecido - também - pela grande e constante desiguladade social que o corrói desde sempre: os ricos continuam ricos, ou enriquecem cada vez mais, e os pobres continuam pobres ou ainda mais pobres; vêem-se favelas ao lado de apartamentos de luxo; uns dormem em casas de férias, na praia, enquanto outros já chamam casa àquele chão húmido e sujo por baixo da ponte.

Para lutar contra a sua condição de vida miserável e por um "lugar ao sol", para tentar sair do anonimato e conseguir algo de seu, uns procuram o acesso à educação e à formação profissional (que nem sequer chega a todos de igual modo) e outros, num acto de desespero (talvez por tentativas frustradas ou talvez por ignorância de um caminho melhor) procuram a aquisição de dinheiro através da prática de acções ilícitas, repudiadas pela sociedade. Mas, mais do que um reflexo da procura de uma vida melhor, a violência é um grito de revolta, uma chamada de atenção para o mundo, é o sinal evidente de que há lacunas na sociedade em que o indivíduo se insere (e, talvez por isso, nenhum país seja imune a este mal).

A solução mais fácil, ou talvez mais cómoda, para o governo brasileiro é a de "eliminar" esses indivíduos prendendo-os, violentando-os, fazendo-os sofrer privações, tomando medidas de emergência que não resolvem, de facto, o problema mas que o podem "conter", como foi o caso da proposta de redução da maioridade penal, em Fevereiro de 2007,  e o requesito para que fossem usadas as Forças Armadas nas favelas do Rio de Janeiro, em Abril do mesmo ano. Mas o que essas medidas têm provocado é a crescente revolta das populações, dezenas de mortes e o gasto de milhões de reais do Estado que poderiam estar a ser utilizados para a resolução da origem da violência, já que ela é o reflexo dos problemas de que o Brasil sofre realmente.

Por isso, pede-se ao Governo que estabeleça as suas prioridades e que invista mais no combate à fome, à má distribuição de renda, no melhoramento da educação, que são pontos cruciais na eliminação do vírus que se instalou há muito no Brasil, e não apenas os sintomas dessa horrível doença que é a violência.

 nota: desisti de tentar pôr imagens aqui - vocês podem imaginá-las...

28Nov/07

Mudam-se os tempos, mudam-se os comportamentos

nota: neste texto, o que está em parêntesis são apontamentos que eu escrevi depois e, como tal, não fazem parte do texto original

Quando se fala em 'valores', a maioria das pessoas pensa num conjunto de opiniões que elas têm sobre o que é certo ou errado e que as leva a agir de uma determinada maneira perante as situações que se atravessam nas suas vidas. São esses conceitos que levam as pessoas a aceitar, rejeitar ou criticar certas atitudes e opiniões por parte dos outros e são também esses conceitos que contribuem muito para o modo como cada um age e vê o mundo nos vários aspectos da sua vida: a relação com as outras pessoas, o modo como encara o compromisso e a diversão. Assim, o choque de valores tem na sua origem as diferenças dos ideais defendidos por determinadas culturas, povos e países.

De acordo com pesquisas recentes, os jovens brasileiros (e, embora não tenham sido incluidos na pesquisa, alguns portugueses também) preocupam-se, sobretudo, em viver intensamente, dedicando-se à busca do prazer pessoal imediato, adiando ao máximo as responsabilidades e compromissos tanto em termos profissionais como pessoais. Muitos deles afirmam que consideram consumista e individualista a geração em que vivem, pois há apenas a preocupação na escolha de actividades profissionais que proporcionem o bem-estar material e o rápido reconhecimento social (money no bolso é tudo o que eu quero, money no bolso, saúde e sucesso!). Além disso, classificam a sua geração como "vaidosa" já que ela valoriza a aparência visual e acredita que isso é a chave para o sucesso e para o surgimento de mais oportunidades na vida. Ainda assim, existe uma minoria de jovens que refuta o consumismo, vê menos televisão e é "politicamente correcto".

Os jovens, que são o reflexo das sociedades, expressam bem quais os valores que são requesitos necessários para integrar determinado grupo e é inegável que as gerações actuais vivem sob uma conduta um pouco (ou talvez bastante) diferente daquela que era considerada desejável pelas gerações anteriores. Talvez os valores como o consumismo, a importância da aparência visual, o prazer pessoal imediato, que são valorizados hoje, sejam um aviso de como o Mundo será visto pelas gerações futuras. Mas deve-se entender que ter diversão e viver a vida intensamente não é incompatível com o sentido de responsabilidade e compromisso, porque esses valores são também reflexo da consideração que as pessoas podem ter umas pelas outras e, não menos importante, por elas próprias também.